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O Brasil que envelhece

O Brasil atravessa uma transformação demográfica profunda e silenciosa. A expectativa de vida alcançou 76,6 anos em 2024/2025, segundo dados do IBGE, indicando recuperação após os impactos da pandemia. O mesmo levantamento mostra que, em 2022, havia cerca de 6 milhões de mulheres a mais do que homens no país, dado que antecipa uma das marcas centrais do envelhecimento brasileiro.

Em poucas décadas, o Brasil deixou de ser um país majoritariamente jovem para se tornar uma sociedade que envelhece de forma acelerada. Em 2010, aproximadamente 11% da população tinha 60 anos ou mais; em 2022, esse número chegou a 14,7%; e, para 2050, as projeções indicam que cerca de 30% dos brasileiros estarão nessa faixa etária. Trata-se de um dos ritmos de envelhecimento mais rápidos do mundo, condensado em um curto intervalo histórico.

Esses dados não são apenas números: eles redesenham o corpo social e transformam profundamente a forma como o tempo, o corpo e o futuro são simbolizados.

Uma transformação global

O envelhecimento populacional não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Em escala mundial, observa-se o mesmo movimento: em 2010, cerca de 8% da população global era idosa; em 2022, aproximadamente 10%; e, em 2050, estima-se que esse percentual chegue a 16%. Em diversos países, o número de idosos já supera o de crianças, sinalizando uma mudança estrutural nas relações entre gerações.

No Brasil, o Painel de Monitoramento do Envelhecimento Populacional evidencia que a pirâmide etária foi definitivamente invertida. Entre 2010 e 2022, o número de idosos cresceu 57,4%, consolidando uma sociedade em que a longevidade deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Nunca fomos tão velhos — e tão femininos

Uma das características mais marcantes desse processo é a chamada “feminização da velhice”. As mulheres vivem, em média, mais do que os homens e, por isso, constituem a maioria expressiva da população idosa. Atualmente, cerca de 55,7% das pessoas com 60 anos ou mais são mulheres. Enquanto na população total há aproximadamente 94 homens para cada 100 mulheres, entre pessoas com 65 anos ou mais essa proporção cai para cerca de 75 homens para cada 100 mulheres.

Essa disparidade resulta de múltiplos fatores: maior mortalidade masculina em idades jovens, sobretudo por causas externas, e maior adesão das mulheres a cuidados com a saúde ao longo da vida. Do ponto de vista psíquico e social, isso significa que o envelhecimento, no Brasil, tem rosto majoritariamente feminino, atravessado por histórias de cuidado, perdas e reinvenções.

A metamorfose do corpo social

Entre 2000 e 2025, o Brasil passou por uma verdadeira metamorfose demográfica. Em 2000, a população idosa representava 8,7% do total; em 2022, esse percentual já ultrapassava 15%, com mais de 32 milhões de pessoas. A idade mediana da população saltou de 25 para 36 anos, e o índice de envelhecimento — que mede a relação entre idosos e crianças — quase quadruplicou.

Em termos simbólicos, isso significa que o idoso deixou de ocupar uma posição periférica na sociedade. Ele passou a habitar o centro da cena social, confrontando o sujeito, cada vez mais cedo, com a imagem da própria finitude.

O tempo, o corpo e o mal-estar

Em O mal-estar na civilização (1930), Sigmund Freud afirmava que o sofrimento humano nos ameaça a partir de três direções: do mundo externo, das relações com os outros e, sobretudo, da caducidade do próprio corpo. O envelhecimento torna essa terceira fonte de sofrimento particularmente visível.

O aumento da longevidade é, sem dúvida, uma conquista da ciência e da saúde pública. No entanto, ele também promove o retorno do que frequentemente é recalcado: a finitude, a dependência, a necessidade de cuidado e o desafio de ressignificar o desejo quando o espelho já não devolve a imagem da potência juvenil.

A velhice, nesse sentido, apresenta-se como um real difícil de simbolizar em uma cultura que privilegia a juventude, a produtividade e a aceleração do tempo.

Para além do mal-estar: a escuta psicanalítica

Diante de um Brasil com mais de 35 milhões de idosos, a psicanálise é convocada a formular novas perguntas. O que faremos com esse tempo que nos foi dado? Como sustentar o desejo quando o futuro se encurta e o corpo impõe seus limites?

O envelhecimento populacional exige mais do que respostas biomédicas ou políticas públicas — exige uma escuta capaz de acolher as singularidades de histórias marcadas por gênero, raça e classe. Envelhecer em uma civilização que nega a finitude pode ser vivido como uma forma de resistência psíquica. Os dados mostram que essa resistência é, em grande parte, feminina, e que o direito ao tempo ainda é profundamente desigual.

O desafio clínico e social é permitir que o idoso deixe de ser visto apenas como um corpo em decadência e seja reconhecido como sujeito de desejo. A psicanálise oferece a possibilidade de uma “velhice possível”, na qual o luto pela juventude perdida não paralisa, mas abre espaço para a pessoa idosa ser reconhecida como um sujeito de desejo.

Que possamos olhar para os gráficos dessa transformação não apenas com o temor da finitude, mas com a disposição ética de construir uma cultura em que envelhecer não seja o fim do sujeito, e sim uma de suas fases mais singulares e expressivas.